Diário de beladona

09:44

Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2026.

09:44 Público
Toda vez que uma sensação boa borbulha todo o meu peito, ela viaja pelo meu corpo e é expelida pelos meus olhos. Sinto uma vontade enorme de chorar quando me sinto bem. É o que chamamos de estar transbordando de emoção, né? Sempre me sinto transbordando de emoção. Agora, estou assistindo a um filme contado por uma menina boba e tola, o que não é algo ruim, porque ela também é fofa e ambiciosa o suficiente para conseguir se descobrir. E estou chorando aos poucos por todo o filme. Isso me irrita, essa parte. Não me incomodo por chorar quando me sinto bem, mas me incomodo por chorar parcelado. Sou forte o suficiente para apenas metade do choro. Quero ser forte o bastante para chorar o tempo todo que me sinto transbordando de emoção.
Hoje é dia 7, dia da sorte máxima, já que é o primeiro dia da sorte do ano, mas ele não poderia ser mais ordinário. Acho que é o que ele faz ser dia da sorte. É um dia comum quando eu poderia estar tendo um dia ruim. Estou descobrindo que choro quando me sinto bem ao assistir ao filme delicioso que se dissolve que nem suspiro na ponta da minha língua, e eu amo suspiros, que nem amo algodão-doce, porque dissolver na boca é uma sensação muito e muito e muito boa. Então, tenho um dia bom e medíocre e sortudo porque não me sinto mal.
Sempre que acordo, me sinto mal. Quando não sonho, me preocupo com o que ocorre quando não vejo. A ansiedade me enche demais. Muito demais. Sempre acordo muito cedo porque essa sensação ruim de nervosismo e de querer saber tudo sobre todas as coisas e sobre todos os acontecimentos ruins ao meu redor e que se referem a mim fica esquentando o pé da minha barriga. Eu sempre acho que uma catástrofe enorme acontece enquanto estou dormindo, por isso que acordo mal. Acordo no susto, é como minha mãe fala. Eu não tiro tempo na cama para me espreguiçar, para lembrar que tenho vida e sangue e carne e assim respirar, acordo no super susto, como se sempre sonhasse que estou caindo de um lugar muito alto, e o sonho acabasse bem quando estou quase encostando no chão, então me levanto como estivesse sentindo o impacto. Bem, isso só acontece quando não sonho.
Quando sonho, tenho pesadelo, e acordo numa calmaria, porque sinto muito medo. Quando estamos com medo ficamos bem calmos até ficarmos desesperados. Mas pesadelos nunca me enchem de desespero porque sonhos se dissipam no mesmo ritmo em que as nuvens se movem.
Não costumo transbordar de melancolia quando me sinto mal. Essas sensações são restritas para quando me sinto bem. Choro, sim, mas de desespero. Não é melancólico, nem bonito, e nem chamo de choro, e sim tempestade. Choro o tempo todo, do jeito que eu queria chorar por estar transbordando de emoção, mas choro o tempo todo por estar transbordando de desespero e extremo pavor. E me olhar como se eu fosse nojo. São as únicas coisas que me fazem chorar por estar mal. Estar transbordando de pavor e me olhar como se eu fosse nojo. Nojento é uma palavra tão ruim, não gosto de escrevê-la. Vamos substituí-la. Soa bem quando falado em voz alta ou soa como apenas uma criancinha com medo da palavra nojo? Enfim, prefiro menta. Não que menta seja ruim, e, sim, isso é injusto, mas algumas coisas são injustas o tempo todo. A menta nunca vai saber que substituiu o nojo, e prefiro que ninguém conte a ela.
Quando estou triste, não penso no que me deixa triste. Sim, atitude de galinha fracote. Mas eu sou forte apenas para as coisas felizes e fujo depressa das coisas tristes. Tão depressa que, mesmo estando no computador, finjo que a tinta da caneta está acabando só para que eu não tenha que escrever sobre coisas tristes.

Enfim, agradeço ao mundo por ser bom, e por dias ordinários, e por tudo que me faz chorar. Por mais sorte de coisas boas para chorar.


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