A morte do homem
Era noite.
Parado, rosto levantado e olhos fechados. Assim sentia as miríades gotas de chuva caírem sobre seu rosto - como um sinal dos tempos.
Embebecido pelas águas que de maneira imponente escoriam por todo seu corpo.
Sentiu, com efeito dos trovões, que não era ele - mas a criação que chorava.
"O homem quer sempre viver mais, mas nunca quer se dar conta de que já viveu muito."
Sob esse drama se anunciava o fim das relações humanas.
Enquanto as torrentes das águas continuavam a cair, cada vez mais fortes.
Ouvia-se ao fundo a voz dos gregos antigos - gargalhavam e pronunciavam seus discursos.
Cada um falava a seu tempo e os demais, ouviam atentamente.
Discorriam eles sobre amor, verdade, tempo e tudo quando faz parte da vida.
A singularidade também se fazia presente, era ela quem fazia o trabalho de parto entre eles.
O banquete estava posto, mas era o sacrifício das palavras onde eles se deleitavam.
Enquanto isto, ouvia-se outras vozes do lado de fora.
Criaturas escondidas na noite.
Via-se saltar pelas janelas migalhas que os de dentro lançavam para aqueles miseráveis.
Onde cada um disputava por seu pedaço.
O homem, debaixo da chuva dizia:
- São tempos difíceis.
Nunca tivemos onde nos gloriarmos, mas agora, tão pouco sabemos o que pensar.
Desde quando recebemos a chave da ciência, não nos convidamos mais a entrar pela porta da carne.
Reduzimos a individualidade ao desejo. E tememos que nos tirem as máscaras, para não verem nossa face desfigurada.
Queremos nos proteger. Nada de essência, nem tampouco verdade.
Dai-nos tão somente o banquete e deixemos para aqueles que vieram antes, os discursos.
- Afinal, para que haveríamos de enfadar nosso espírito e estrangular nossa alma, tecendo os significados do mapa que está dentro de nós? Não nos importamos o que isso nos custe.
Naquele momento, ele abriu os olhos e, estendendo a mão ao alto, viu que chovia sangue por sobre toda a terra. Quando de repente, um trovão bradou:
"O homem está morto".
Comentários (5)
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sábado, 21 de fevereiro de 2026 às 19:44
Mrnostal às vezes me sinto assim também
sábado, 21 de fevereiro de 2026 às 19:43
Kkkk
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 às 16:45
Me sinto uma analfabeta funcional por não ter entendido nada ;(
vou ter que reler tudo de novo
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026 às 21:02
De si mesmo.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026 às 07:06
O homem morreu de que?