pink in the night
querido noah,
faz tempo que ando tentando escrever isso aqui, não quero parar de escrever pra você. me sinto confusa com o que sinto sobre você muitas vezes, se te odeio ou te amo, se quero parar ou continuar escrevendo pra ti. mas sempre sei que, no final, eu te amo mais que tudo, e quero mais que tudo estar perto de você, nem que seja só com minhas palavras secretas. me sinto especialmente confortável porque sei que, aqui, você nunca lerá. mas ando cada vez mais com as palavras entaladas na garganta, e, nesse exato momento, acordo chorando de um sonho.
é tão ruim a hora de ir dormir, pois não importa se eu sonho algo ruim, como você e claire (ou outra mulher), ou se eu sonho algo bom, como eu e você juntos de novo... quando acordo, sinto o peso de uma bigorna no meu coração, e caio em prantos todos os dias. acho que desde que você se foi, não houve um único dia que não chorei.
o sonho de hoje foi tão bom, você aparecia na porta da minha casa com um buquê, e me pedia desculpas, e eu chorava tanto que mal podia falar que as aceitava, enquanto te abraçava e te beijava. depois, fomos pra cama... enfim. te ter tão perto assim, eu sinto tanta falta. eu nunca mais vou te ver na vida, sou incapaz de aceitar isso...
mas também é algo de que eu tenho certeza, porque posso sentir o cronômetro da minha vida chegando perto de apitar. eu sinto que carrego uma nuvem negra que joga em cima de mim um dilúvio incessante, ela fica cada vez mais escura, e eu, cada vez mais triste.
esse mês foi a primeira vez que eu dei um passo pra terminar tudo isso, mesmo que tenha sido estúpido. eu mal sei explicar como isso aconteceu. no trabalho, estava me sentindo tão mal faz umas semanas, como sempre. estou me acostumando a sentir palpitações, dor, ânsia de vômito... e quando deu meu horário de almoço, em vez de sentar-me em algum canto isolado e ler pela próxima hora, eu saí.
sei que parece algo normal que uma pessoa pode fazer, mas eu sou muito medrosa, muito lerda, não sei me virar sozinha na rua em muitos lugares, e sinto ansiedade em falar ou estar perto de muitos estranhos. e, mesmo assim, eu saí. e comecei a andar, sem saber pra onde ia. acho que nunca fiz isso na vida. depois de uns 15 ou 20 minutos, me deparei com uma farmácia. de forma inconsciente, entrei, e pedi a maior quantidade de algum remédio tarja preta que eu conhecia o nome.
"tem receita?", a balconista perguntou o óbvio. eu estava como se fosse num transe... e gelei quando recebi a pergunta como um tapa na cara. não sei por quê fui até lá ou perguntei isso. respondi de forma bem travada e nervosa que não, agradeci e dei as costas. eu pude ouvir a risada da moça antes de sair, e foi rápido que meus olhos marejaram como todos os dias. voltei pro trabalho chorando como um bebê, sei que nunca me senti tão sozinha em toda minha vida.
mesmo quando eu era criança e sofria bullying na escola, e passava todo meu tempo na companhia de um livro, muitas vezes um da lygia bojunga. naquela época eu não sabia mais o que era ser feliz, não me lembrava, então não sentia falta de nada. mas agora, eu me lembro muito bem de você, meu amor. e estou em constante agonia.
quero seus olhos castanhos em mim de novo, me lembro de quando eu me trocava na sua frente e você me olhava com tanta vontade e amor, até assoviava. ou quando saímos com minha prima e o namorado dela, e você quis se exibir e me pegou no colo no meio do shopping inteiro... quando você me desenhava durante nossas ligações da tarde, e até escreveu nossas iniciais na capinha do seu celular.
eu vi na sua foto de perfil de uma conta do tiktok que eu encontrei faz um tempo, que você nunca me contou que existia, que você trocou a capinha do celular agora. cada centímetro da minha existência na sua vida você está apagando, como se eu nunca tivesse estado lá, enquanto o seu fantasma assombra meu querer com tanta força, que mesmo podendo, não quero conversar com ninguém que não seja você, e sou a pessoa mais isolada do brasil. isso me dói tanto que sou incapaz de descrever, o fato de que você está satisfeito em não me ter, nunca mais.
foi no dia seguinte ao dia em que visitei a farmácia sem querer, que eu acordei muito mal. mas o meu "muito mal" geralmente é só uma cara fechada, pois evito chorar na frente da minha mãe, isso só me traz problemas. você sabe disso, apesar de não se importar. eu me sento na cama por alguns minutos, tentando entrar em um consenso com os demônios, que tentam me puxar de volta pra cama. mas me levanto, muitas vezes porque a mamãe passa pelo corredor e dá duas batidas na porta, como quem me passa uma bronca silenciosa. tenho medo dela, então vou ao banheiro, choro um pouco lá, e me arrumo, depois me sento na mesa, e faço um esforço descomunal pra ingerir o que quer que seja o café da manhã.
não ando comendo nada. sempre tive um certo transtorno alimentar no meu cérebro, ao qual eu nunca me rendi. depois que você foi embora, ele dominou minha vida por completo, junto de todo o veneno e coisas ruins que havia dentro de mim, e eu tentava guardar pra focar em você. qual motivo eu tenho pra sequer tentar estar bem agora, não é? agora, eu tenho um corpo que sempre desejei ver em mim, eu olho no espelho e, sem puxar a barriga pra dentro ou fazer qualquer esforço, minha barriga é reta e eu posso até ver minhas costelas.
e ainda assim, não estou satisfeita. à muito tempo, isso faria eu me sentir feliz e mais bonita, mas eu só sinto nojo de mim mesma. talvez eu devia ficar MAIS magra, sei lá. sou alta pra uma garota, faltam dois centímetros pros meus 1,70, mas estou pesando agora 45kg. nunca cheguei nesse marco antes, talvez na última vez eu tinha uns 13 anos.
depois desse ritual nojento e terrível que eu passo todas as manhãs, o dia de trabalho se foi e, quando eu sentei no banco do passageiro pra voltar pra casa, minha mãe comentou que conversou com a sua. nas primeiras semanas do nosso término, eu ouvia essa frase sempre, e eu era grata pois era o único jeito de ter notícias suas. mas agora, tecnicamente fazem dois meses, e até elas desistiram de nós, assim como você. não conversam mais com frequência.
minha mãe não diz a verdade, que estou tão doente que acho que logo eu talvez morra ou seja internada em uma clínica psiquiátrica. ela diz que estou bem, e a sua também fala de você. ela disse que você ficou doente essa semana, que até foi pro hospital tomar soro, e eu quis tanto te chamar e saber se estava bem, mas, você nunca ia querer isso, e não faria o mesmo por mim, não fez até agora... sua mãe também conta tantas mentiras: que você está bem, mas diz que sente saudades, que chora às vezes, mas que sente que não deve conversar comigo porque me faz mal.
eu espero muito que ela diga isso pra acalmar meu coração perturbado. porque se você diz isso tudo mesmo, me magoa tanto. é impossível você estar com saudades de mim, enquanto faz um esforço tão gigante pra seguir em frente. você faz de tudo pra estar longe de mim, e não há um único sinal de que isso te faça mal. você parece ter muito o que fazer agora, constantemente online no discord durante horários que, enquanto estávamos juntos, você alegava que sempre estaria ocupado. deve ter muitas pessoas com quem conversar agora. mais importantes do que eu.
óbvio, ouvir de você me fez chorar. e eu não devia ter nem aceitado ouvir, porque se eu choro, acontece algo ruim. já em casa, óbvio que eu e minha mãe começamos a discutir. prefiro nem entrar em detalhes, mas, resumidamente, ela acha que eu não penso o suficiente na depressão dela, só na minha.
quando me fechei no quarto pra ficar um pouco longe dela, eu senti algo que nunca senti na vida. não deixa de me ser familiar um ataque de pânico, uma crise de ansiedade, coisas do tipo. mas essa foi algo tão... debilitante, que nunca me aconteceu antes.
sentei no chão enquanto me debulhava em lágrimas, e senti o de sempre, a dificuldade de respirar. mas, dessa vez, minha respiração ficou mais rápida, tão rápida que eu não conseguia me controlar direito, quase puxava ar ao mesmo tempo que exalava, e mesmo assim parecia que esse ar não chegava aos meus pulmões. abri a boca pra respirar por ela, mas nada vinha também. logo eu senti a ponta dos meus dedos da mão começarem a formigar, enquanto eu chorava tão alto e engasgava com o oxigênio dessa terra amaldiçoada em que vivo. minha boca ficou branca (eu sei porque sentei praticamente na frente do espelho), e minha cabeça ficou leve. foi uma cena tão humilhante de se ver, e praticamente aceitei que ia desmaiar ali mesmo. comecei a babar pelo chão inteiro, foi nojento, eu não sabia se ia adormecer ou vomitar. se minha mãe ouviu isso tudo, não se deu o trabalho de vir me ver, provavelmente porque estava brava, mas eu também não consegui me dar o trabalho de chorar baixinho dessa vez.
e eu juro que pareceu que eu passei uma meia hora completa assim. foi aterrorizante, mas passou, eu consegui respirar devagar. limpei a saliva do chão, e quando olhei pra cima, parecia que o ralph macchio no meu quadro do cobra kai que grudei muitos meses atrás no meu armário estava me encarando. era você, rindo de mim. levantei com tanta raiva e arranquei aquela merda com tanta dificuldade que arranhei meu braço e ele sangrou. a cola era boa, durou bem mais que nosso relacionamento. mas eu a venci, e joguei ela debaixo da minha cama, no cemitério das nossas coisas que eu sou incapaz de jogar fora. me deitei em cima dela e dormi, só pra sonhar com você de novo e acordar chorando, de volta nesse loop infernal em que "vivo".
depois desse dia, eu comecei a ter algumas dessas crises que parecem que eu vou morrer. acho que isso foi semana passada, não me lembro, mas então pode-se dizer que eu tenho algumas por semana, geralmente quando estou sozinha, pensando em você.
estou com tanta saudades de você, da sua mãe e vó, da sua casa, da sua cidade, da praia. eu odeio essa porra de cidade que eu moro, odeio que todo dia na hora de sair do trabalho eu passo pela rodoviária, e vejo aquele mesmo portão verde de sempre. eu odeio ODEIO odeio a vida que levo, odeio essa porra de carro onde você já se sentou, odeio meu chuveiro onde você já se banhou, odeio minha cama onde você já dormiu. como você não se sente assim também? provavelmente porque nunca me amou.
foi ontem, num sábado, então, que meu pai me convidou pra sair, ele anda me convidando muito, e eu não sei se gosto disso. restaurantes, teatros, eu não quero ir pra lugar nenhum, nada me apetece ou me impressiona mais. mas eu fui, e minha família quase toda também foi, ver minha vó se apresentar. foi só uma irmã da minha vó sentar ao meu lado e perguntar "e o namorado, não veio?" que eu senti meus olhos marejarem de novo e minha garganta fechar. mas eu respondi só que não, porque não ando contando pra muita gente que terminamos. na minha cabeça, somos sempre um do outro. eu posso ao menos fantasiar com isso, não posso?
me sinto tão invisível diante da multidão, posso estar cercada de amigos ou da minha família inteira que daria no mesmo se eu nem tivesse ido, minha presença é irrelevante, meramente decoração ambiente. toda vez que eu abro a boca ninguém me ouve. eu contei isso pro meu pai chorando na volta pra casa e ele não concordou comigo, mas ele não sentiria o mesmo, pois ele não é eu.
então, me sentindo assim da forma mais intensa que já senti na minha vida, pior mesmo do que 2022, sei o que devo fazer.
eu não quero tentar mais. não quero viver sem você. não quero conversar com ninguém, nem com um amigo, com meus pais, com a psicóloga ou psiquiatra, não quero tomar mais remédios. não quero mais nada. eu nunca vi um futuro pra mim mesma, sabia que eu não ia durar muito neste planeta, mas quando começamos a ficar juntos, você se esforçou pra me convencer que íamos ter filhos, casar, e que eu ia me sentir feliz finalmente, e eu tolinha, acreditei. por tanto tempo esse foi meu sonho, me casar com você.
quando eu fechava os olhos e pensava no meu futuro, eu via um vestido branco e criancinhas da pele morena e dos olhos puxados, igual você, stella e daniel. e me sentia bem e certa quanto a isso. agora você tirou isso de mim, mentiu... e quando eu fecho os olhos, volto a me ver pendurada no teto. às vezes, queria nunca ter te conhecido, pra não ter sido torturada com a ideia de saber como é me sentir bem e amada, só pra deus me relembrar que esse tipo de coisa nunca realmente foi pra mim.
se eu não tenho mais futuro, se eu voltei pra estaca zero, sei o que devo fazer. meu tempo está acabando, e é assim que o fim sempre deveria ter sido. eu não devia ter acreditado nas ilusões que você me alimentou, talvez a culpa seja única e exclusivamente minha, certo?... você não é o eren, e mesmo que tenha me dito que você preferiria que eu ficasse uns 10 anos no mínimo sentindo saudade de você se você morresse, sei bem que você não faria o mesmo por mim. acho que quando eu me for você não vem nem no velório... acho que nem vai ter um velório. sei que vai ficar mais velho ainda e se casar com outra mulher muito mais bonita e menos problemática do que eu, e vai estar feliz e satisfeito com a própria vida, sem poupar sequer um segundo dela pra pensar em mim. como teria sido se você tivesse cumprido suas promessas.
mas eu não sou fria igual você, e sei que, quando eu decidir que é o momento perfeito pra partir, eu estarei pensando em você a cada segundo. vou fechar os olhos e imaginar que são suas mãos em volta do meu pescoço, tirando meu fôlego uma última vez, e vou sorrir vendo seu rosto na minha frente, sentindo seu toque fechando minha entrada de ar. e vou me sentir calma e tranquila.
sei que é uma grande responsabilidade pra se por nas costas de alguém, que eu provavelmente estou sendo um pouco cruel, não tanto quanto você é agora. mas sim, quero morrer por culpa sua. apesar de talvez rude, é a minha verdade.
"i'll love you forever, sid"
"you will?"
"yes. that's the problem."
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