A alegria do sofrimento perene.
Esta sombra, que me rodeia, sem que dela eu possa me desvencilhar - Atrelada ao chão, fazendo menção ao que sou e o que tenho sido - que me deixa perplexo.
Encontrei uma pedra preciosa escondida debaixo dos escombros da terra.
Concebi que todo movimento da carne neste mundo é apenas um fragmento de uma ferida que fora aberta - antes mesmo do impacto da lamina.
Sob o choro tétrico de todas as criaturas ao longo deste tempo inescrutável. E em seu riso escondido em no funeral. Diante de todas as feições, alegrias ou amarguras. Lá está ela, sangrando até o dia em que será estancada para sempre.
Vi um homem de má sorte, sendo apedrejado por seus entes queridos. Queriam eles que este fosse mais forte, em vista do mundo que o esmagava. Teve diante de si, a refeição da manhã retirada. E saindo ele de casa, com suas vísceras lhe apertando, em direção a labuta. Ao meio dia, nada tocou seus lábios, senão uma poeira da qual ele não sabia de onde viera.
Durante todo o dia falou o necessário para o ofício - ainda que este não fosse o seu.
Já a noitinha, bateu sua sentença e, enquanto caminhava a passos largos na volta para casa, sentia aquele aperto ainda mais forte.
Banhou-se com água fria, fez tudo com a mesma pressa do dia.
Até chegar o tão sonhado momento.
Um prato de vidro deitado na mesa, acompanhado de um talher de prata.
Dentro - a pedra.
Moveu-se então os lábios com verdade e disse:
Aqui está o primeiro fundamento das coisas.
Disse isso para mim, mas também digo a ti que me podes ver.
Que eu estivesse demasiadamente cansado por não alimentar-me. Por medo de, quebrando essa pedra entre meus dentes, acabasse por aumentar ainda mais a minha dor - sem poder matar minha fome.
Pois eu mesmo açoitei a outros, enquanto também era por eles açoitado. E em minha angustia, quis um lugar para deitar de barriga para baixo - escondendo meu rosto e descansando minha costas.
Não fora como eu quis, assim como não fora para ti.
Mesmo assim, ao longo dessa tortura - eu vi, ainda que por curtos períodos que ao longo da linha que um dia será cortada - a beleza da pedra.
Então, quando ferido, pude ver as escamas caírem dos meus olhos e ver o sofrimento que, em ti, estava.
Era meu, coisa do eu.
Que não sairia impune, mas justificado ante ao tribunal humano.
Quando o sangue daquele corte profundo respingou em mim - a milhares de anos.
Foi que compreendi.
Que quando traído, e quando o apertar de minhas entranhas fez subir o gosto amargo em minha boca - que foste verdadeiramente fiel.
Porquanto, o que em mim fora causa de desconforto e condenável - em ti se completou de forma bela e admirável. Premindo-me ter a honra de sentir o que tu sentiras por mim, em meio a calamidade - debaixo daqueles escombros.
Percebi que a sorte não faz sentido num ato como este - que organiza o todo.
Alargando o meu sorriso em detrimento de uma alegria posta numa pintura - a qual se inspira a alma.
O relógio com meu nome, no teu pulso fez um giro completo novamente - mas meu regozijo está em poder observar-te, em poder dele.
"Sabendo que esta pedra é quem me permite sair pela manhã, estimando voltar, para por ela ser completamente... saciado."
Comentários (1)
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domingo, 17 de maio de 2026 às 19:36
Que viagem.